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AUTISMO E PSICANÁLISE – XV

TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

Melissa vai me visitar uma vez por semana. Às vezes muda o horário, mas jamais falta. Jovem adolescente, magra e bonita, ela se acha feia porque tem uma irmã muito mais bonita. Tem uma estima muito rebaixada, proveniente das dificuldades de aprendizado que sempre carregou na vida escolar. Não tem amigos na escola nem fora dela, apenas colegas que “a suportam”. Odeia o seu nome: “é marca de sandália, por isso todo mundo pisa em mim”.
Ela divide a sessão em compartimentos estanques perfeitamente definidos, e eu deixo que ela pense que comanda o processo. Começa a sessão com histórias felizes, passa para as dolorosas, depois chora, em seguir elogia meu jeito jovem de ser (“você é meu amigo mais jovem, todos os outros são muito velhos”), e volta com as histórias felizes. Se eu me dispusesse a marcar o tempo, descobriria que cada uma dessas fases tem exatos dez minutos.
Eu a levo até o elevador, nós nos abraçamos como amigos antigos e ela leva o sorriso com ela. Volto ao consultório com a impressão de que sei o que vai acontecer na próxima semana, e que tenho que mudar o roteiro previamente estabelecido por ela. Acontece que esse roteiro não é uma defesa, faz tempo que penetrei na fortaleza dela e ela deixou. É um roteiro que, ao mesmo tempo em que a deixa segura, fala tudo sobre a maneira como é por dentro: sente-se infeliz e, porque quer que ninguém mais seja, precisa agradar o outro, deixar a vida do outro mais agradável. Incluindo a minha, ou principalmente a minha, já que sou seu amigo mais jovem.
Então chega contando histórias felizes, e sai contando histórias felizes. Deixa a terapia em si para o recheio das duas fatias. A divisão rígida do tempo tem a ver com a rigidez do seu pensamento, é uma espécie de ritual que faz parte do quadro. E sabe que não sou jovem, simplesmente ela se acha mais velha do que é, e pensa como eu. Simbiose, identificação.
Ela fala uma linguagem dos anos antigos, é como se minha mãe estivesse me contando histórias. Refugiou-se num mundo onde os jovens que a rodeiam não podem entrar. E vive se castigando, cada vez que erra: ou arrumando um namorado que não vale nada, ou deixando de comer até o limite do organismo, ou faltando à escola em dias de provas. Auto sabotagem.
Foi numa dessas crises dela que eu mudei o divã de lugar, de modo que ela fosse obrigada a ficar de frente para um grande espelho. Durante a sessão, ou olhava seu reflexo, ou fechava os olhos. E ela fez isso: durante as histórias felizes, olhava-se, acertava os cabelos, deixava escapar pequenos sorrisos. Durante as histórias tristes, fechava os olhos ou olhava pra baixo.
Na terceira sessão no novo modelo, propus que se olhasse também durante os lamentos e choros. Falei que isso serviria para a análise do conteúdo terapêutico. Ela concordou, mas disse que era apenas para me agradar, que por ela não o faria. Mas fez. Confessou que era a primeira vez que se olhava no espelho durante as tristezas e choros, mas fez.
E então a mágica se deu: uma moça bonita de dezoito anos assistiu sua própria tristeza refletida no espelho, as rugas que a tristeza traz, as mágoas refletidas nas gotas de lágrimas que rolam no rosto, o vermelho dos olhos, o esforço do nariz para não deixar sair secreções, o rito da boca, tentando sobreviver à falta de sorrisos, a expressão da dor. Pela primeira vez ela conheceu e reconheceu a face da dor.
Disse-me que não gostou.
Aquela sessão quebrou o ritual: naquele dia, ela não conseguiu voltar à história feliz antes de ir embora, e a despedida diante do elevador foi triste. Perguntou-me o que aconteceu, e eu expliquei: todos os dias ela voltava pra casa no mesmo estado em que chegava, e deixava a tristeza comigo. Pensava que deixava a felicidade, porque me contava histórias felizes, mas não: deixava a tristeza e levava a felicidade com ela. Era uma tentativa de ser feliz, mas não funcionava, porque era irreal, forçada, não era natural. Naquele dia ela levava a tristeza real, então poderia lidar com ela com naturalidade.
Disse-lhe que deveria adotar a prática de se olhar mais no espelho de casa: “quando estiver triste, tire toda a roupa e olhe-se bem no espelho, observe todo o seu corpo; quando estiver feliz, faço o mesmo. Compare as diferenças, e verá como é linda sempre, mas é mais linda quando está feliz, porque o ser humano nasceu para ser feliz. Se fizer isso regularmente, vai poder se livrar de mim e me trocar por jovens realmente jovens”.
Ela me disse que não quer me trocar, porque ama meu jeito único de escuta-la. 
Não é que Rubem Alves sempre esteve certo?

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