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AUTISMO E PSICANÁLISE – XIV

TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

- Você não vai me perguntar sobre a minha vida?
Amanda fez a pergunta ao mesmo tempo em que se acomodava na poltrona, antes mesmo do boa tarde.
- Não – respondi – acha que deveria?
- Não é o que vocês fazem? Perguntar sobre a vida dos outros? A outra me perguntou tudo.
- E você respondeu? Contou as suas verdades?
- Claro, não gosto de mentir, ainda mais para terapeutas.
- Então conhece as suas verdades?
- Eu me conheço muito bem, não ando por aí fingindo que sou o que não sou.
- Ótimo! Então vou providenciar sua alta.
- Alta? É meu primeiro dia! Que história é essa de alta?
- O único motivo de você estar aqui é para se conhecer melhor. Se já se conhece, não tem que se deslocar de tão longe e de gastar seu dinheiro comigo. Que tal descermos e você me pagar um café, em vez de me pagar a sessão?
- É que eu não vim aqui por minha causa, não preciso de terapia. Eu vim porque as pessoas não me compreendem, os amigos da escola me deixam de lado, minha família implica comigo, não sei fazer amizades.
- Mas, Amanda, entenda: se são as pessoas que não te compreendem, elas é que têm que vir fazer terapia. Você não tem que fazer esse esforço se a dificuldade é delas. Por que não diz isso pra elas?
- Mas se acabei de falar que não sei fazer amizades, não sei falar com as pessoas, não sei começar assuntos. Sou asperger, você não sabe como funciona a cabeça do asperger?
- Ah, querida, não sei mesmo, eu não sou asperger. Não quer me contar?
- Não sabe mesmo ou está brincando? Porque a professora me disse que você é o cara, que sabe tudo sobre o assunto. Por isso vim.
- Saber sobre o assunto só requer bastante estudo. Saber como funciona a sua cabeça só você sabe. Pode me contar, se quiser. Eu entenderia e poderia conversar melhor com você. É importante, para conversar com o outro, saber como o outro pensa. Isso se chama empatia, e eu queria praticar empatia com você. Podemos fazer assim: você me conta como funciona a sua cabeça e eu te conto como funciona a minha, assim a conversa fica melhor.
- E isso é empatia?
- Não, isso é reciprocidade. A empatia vem depois, quando eu conseguir pensar com a sua cabeça e você com a minha.
- Trocar de cabeças?
- Isso mesmo, você compreendeu.
- Então eu quero, sempre quis ter cabelos brancos sedosos.
- Gosta dos meus cabelos?
- Gosto muito.
- Acha que são sedosos?
- Parecem.
- Por que não faz o teste?
Eu me debrucei na direção de Amanda e ela passou os dedos nos meus cabelos. Tão de leve, com tanto cuidado e pudor, que poderia nem senti-los, se não tivesse proposto, se fosse espontâneo e eu não soubesse que ia acontecer.
Amanda voltou à posição rígida original, mas eu não voltei. Permaneci debruçado, os olhos nos pés dela, os cabelos à disposição dos seus olhos, até ela quebrar o silêncio.
- Quando começamos?
Respondi, sem mudar de posição:
- Já começamos, querida. Já começamos.
Então voltei a fita-la nos olhos:
- Hoje você me ensinou como funciona a sua cabeça. Então hoje eu vou te pagar a sessão. Na próxima, eu vou te mostrar como funciona a minha e você vai me pagar a sessão. Cada um de nós sempre paga pelo aprendizado que a vida nos traz. Hoje a vida me trouxe o aprendizado através de você, na semana que vem podemos inverter isso. Até que eu possa pensar com a sua cabeça e você com a minha. Aí teremos empatia um pelo outro, e os dois pelo mundo, e você poderá ser compreendida pelos colegas, pela família e poderá fazer milhões de amizades.
Levantei-me, e ela me imitou. Tirei o dinheiro do bolso e ofereci. Ela hesitou. Puxei a mão dela, coloquei o dinheiro e fechei seus dedos em torno. Segurei uns segundos, até que ela se acostumasse. Então Amanda, sem olhar pra mim, me abraçou e chorou.
Eu também.

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