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AUTISMO E PSICANÁLISE – XVI




TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL

- O amor é um sentimento ou uma reação química?
A pergunta me pegou de surpresa, embora eu já devesse estar acostumado a esses repentes.
- Não tenho certeza, talvez seja uma emoção que provoca uma reação química. Por que pergunta?
- Porque ouvi você dizer numa palestra que sentimento não é o que a gente sente, que o que a gente sente é emoção, e que sentimento é como a gente descreve a emoção.
- Mas é isso mesmo, parabéns por ter prestado atenção.
- Então quem acha que ama, mas não consegue descrever não tem emoção? E se a pessoa não sabe falar?
- Para descrever uma emoção não é preciso falar. Existem mil maneiras de demonstrar: abraços, beijos, cuidados, carinhos...
- Então o amor só é sentimento quando é demonstrado?
- Isso mesmo, está ficando esperto.
- É por isso que você sempre diz que não existe o amor, que só existe o amar?
- Perfeito. Amar é um verbo, não existe o amor se não se tornar uma ação. Ação de falar, beijar, abraçar, cuidar. Quando faço panquecas pra você, estou amando; quando pego na sua mão até você dormir, estou amando; quando cuido dos seus ferimentos, estou amando; quando velo seu sono estou amando.
- Você acha que eu te amo?
- Acho que você me ama, e acho que você ama todos seus amigos. Você cuida deles. Quando leva a mochila da Julia porque ela é pequena e não pode carregar peso, está amando; quando divide seu lanche com o menino que esqueceu de levar, está amando; quando ensina a lição para o colega, está amando; quando me abraça e diz que me ama, está amando.
- Entendi: amar é verbo, se não há a ação não há amor. É por isso que você também diz que só podemos amar a nós mesmos se antes amarmos o outro: porque, se sentimento é a descrição da emoção, precisamos demonstrar nosso amor amando o outro. Não dá pra demonstrar amando só a nós mesmos.
- Muito bem, querido. Agora responda: amor é um sentimento ou uma reação química?
- O amor ainda não sei. O amar eu já sei que é um sentimento. Amo você.
- E eu amo você.

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