TEXTO DE MANUEL VAZQUEZ GIL
Se um cientista fosse um grande artista, a entrada triunfal de Freud teria sido o seu livro “A Interpretação dos Sonhos”, sua obra prima e a porta aberta para a compreensão da sua vasta criação. Embora médico e psicólogo, e criador de uma área do conhecimento que não se esgota, Freud não foi agraciado pela ciência. Mas ganhou os mais importantes prêmios da literatura, e teria sido indicado ao Nobel de Literatura, não fosse um judeu vivendo na Áustria na época das duas grandes guerras.
Para ter uma pequena ideia de como sua literatura era incisiva e libertadora, Hitler mandou queimar todos os seus livros, e teria mandado queimar o autor, se gente influente não tivesse conseguido fazê-lo chegar a Londres.
A neurociência de hoje tem comprovado algumas teorias de Freud. Uma das mais interessantes refere-se aos sonhos, que o mestre considerava a realização de um desejo. Os sonhos recorrentes constituíam, para ele, fonte de grande conteúdo inconsciente. Pois o fato é que sonhamos enquanto dormimos, não sabemos exatamente porque e como sonhamos, mas sabemos que dormir é necessário. Freud dizia também que quem não sonha enlouquece.
Maiken Nedergaard, neurocientista dinamarquesa, usando ferramentas modernas para mapear o cérebro, fez uma descoberta interessante a respeito disso: enquanto dormimos, a combinação diferente de moduladores que banham o cérebro e a redução dos batimentos cardíacos, resultado da diminuição do estresse, faz com que o espaço entre os neurônios fique maior. O líquor responsável por lavar o tecido cerebral ganha flui melhor e as micróglias, células da glia responsáveis pela remoção de detritos e células mortas podem trabalhar com melhores resultados.
Nedergaard batizou o processo de “circulação glinfática”, em homenagem à circulação linfática que, fora do cérebro, faz o mesmo trabalho. E confirmou a importância do sono para a saúde mental. Mas não foi só isso: ela descobriu que a remoção é três vezes mais eficiente quando dormimos de lado, uma vez e meia quando dormimos de barriga para cima, e é dificultada ou não ocorre quando dormimos de bruços. Se você tem um gato, sabe agora porque ele dorme de lado ou de barriga pra cima.
Dormir com a bunda virada pra lua, como diz o ditado, pode trazer dinheiro, mas não traz saúde.
Pois Freud diria que é nesse espaço e tempo, quando os dejetos estão sendo removidos que os sonhos ocorrem, fugindo do inconsciente pelas janelas oportunizadas pela circulação glinfática. E que eles representam os desejos não realizados enquanto os neurônios estavam mais próximos e podíamos elaborar raciocínios para torna-los eventos reais.
Mas o benefício do sono, com a consequente remoção de dejetos, e do sonho, com a realização ideal de desejos que não pudemos ou não soubemos realizar acordados, vale para o sono repousante e natural, não para o sono induzido por drogas. Porque a introdução medicamentosa para esse fim atua no tecido neuronal diretamente, impedindo a ação natural do espaçamento entre neurônios e dificulta o trabalho das micróglias na faxina noturna.
Freud experimentou drogas em si mesmo, como cocaína. Era comum, à época, pesquisadores usarem a si mesmos como cobaias. Ele nos diria que os sonhos oriundos do sono natural são realizações de desejos, mas os sonhos induzidos por drogas são alucinações.
De qualquer forma, precisamos sonhar para não adoecer, então durma. E durma de lado. Se puder, de conchinha. Ainda não inventaram um remédio melhor pra dormir do que uma conchinha.
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