Texto de Manuel Vázquez Gil
Mais de 99% dos seres humanos não têm memória e são incapazes de reproduzir algo que assistiram ou viveram com fidelidade. Pior: são incapazes de reproduzir duas vezes da mesma maneira um mesmo acontecimento.
A área cerebral responsável pela memória está localizada na mesma região da área responsável pelos afetos e sentimentos. Quando tentamos resgatar os acontecimentos, as duas áreas competem entre si, e ganha a que tiver maior importância no momento. Na quase totalidade dos seres humanos, ganha o afeto. Porque o afeto muda nossa vida, mas o acontecimento passado pode ser esquecido.
Dessa forma, o que nos acostumamos a chamar de memória é, na verdade, uma lembrança. Tanto que sempre nos referimos aos relatos do passado como o ato de lembrar, não de memorizar.
Memória e lembrança são, na verdade quase opostas. Para os gregos, memória (mnemis) era o ato da conservação dos acontecimentos, enquanto lembrança (anamnesis) era o ato de resgatar esses acontecimentos e externa-los. Para os latinos, memória (memor) tinha o mesmo significado de conservação, enquanto lembrar (memorare) era um verbo, denotava ação.
Veja que para ambos a função era semelhante: memória era um substantivo e lembrança, um verbo. Por isso nós não "memoriamos", apenas lembramos. O que significa que toda vez que recorremos à memória, estamos na verdade externando lembranças.
O detalhe é que as lembranças são moduladas pelos afetos, e nunca externam o que exatamente está conservado na memória. E como os afetos mudam constantemente, não só contamos a mesma história de forma diferente, como também a sentimos de forma diferente.
Tão acostumados com esses auto-enganos, nem percebemos que estamos sempre revisitando e modificando nosso passado, e a cada dia temos uma história diferente e somos pessoas diferentes. Por isso não é possível tomar banho duas vezes no mesmo rio: porque no segundo banho já seremos outra pessoa.
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Daí, quando nos deparamos com aquela pessoa especial que não tem lembranças, que resgata a memória concreta, sem a inferência dos afetos, ou porque encontrou naturalmente a fórmula de não deixar os sentimentos modificarem os fatos, ou porque (o que é mais provável), as áreas da memória e a dos afetos estão em locais diferentes e afastados no cérebro, não a compreendemos e tentamos a todo custo mudá-la, para que possa ser semelhante a nós.
Sei que sabe do que estou falando, mas também sei que amanhã sairá novamente em busca de ajuda para que aquela pessoa seja adestrada a ter lembranças como as nossas, a que singelamente chamamos de teoria da mente, "pensar com o coração".
E, no entanto, o que de melhor poderia acontecer para a humanidade seria todos terem memórias, e não lembranças. No mínimo, pararíamos de nos enganar e de enganar o outro com nossas versões fantasiosas de acontecimentos reais.
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Foi há muitos anos que descobri a diferença entre memória e lembrança, e entre mnesis e anamnesis. Desde então nunca mais fiz a anamnese dos meus clientes: sei, de antemão, que vão me trazer apenas lembranças e, para o trabalho que faço, que é descobrir as verdades inconscientes, só me servem as memórias.
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Eu exercito a minha memória: escrevo o acontecimento e guardo. Quando preciso lembrar novamente, escrevo o que lembrei na hora e comparo com o que deixei guardado. A diferença entre os dois relatos corresponde à diferença de afetos da hora em que os escrevi. Comparando dois relatos escritos, compreendo os afetos que me modulam e comandam naquela hora.
E se - apenas como exercício - você tentasse também? E se, depois de fazer algumas vezes esse exercício, compreendesse que aquelas poucas pessoas que têm memória estão mais certas que nós e, de repente, em vez de tentar muda-las, comungasse com elas do mesmo prazer que nos traz a memória do jeito que ela é?
É, amigo, é preciso ousar para fugir dos nossos auto-enganos. Deixe seu corpo e sua mente virarem sol.

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