Aproveitando que estou ainda em estado de graça, por causa de tanto colo que ganhei lá em Teresina (nem vou falar do porre de cajuína), e pedindo paciência à Claudia Zirbes, antes de falar sobre Lacan e o autismo, preciso fazer uma breve história da Psicanálise. Porque as pessoas acham que Psicanálise é um negócio tipo biscoito de polvilho ou chá de quebra-pedra: uns gostam, outros não, outros são indiferentes a eles, mas podem critica-los por causa do aroma ou do sabor. Só que não é assim, a Psicanálise, embora não seja nem queira ser uma ciência, é um vasto campo do conhecimento humano.
Eu diria que é a terceira via do conhecimento, navegando entre os dogmas religiosos e a experimentação científica.
Pra você entender a Psicanálise, precisa primeiro conhecer a história da Psiquiatria: esta última surgiu no apagar das luzes do Séc. XVIII, com o movimento de Pinel, organizando a manicômio como instrumento de cura, marcando a psiquiatria como tratamento moral, e inscrevendo-a como um ramo da Medicina. Pinel marcou para sempre a Psiquiatria, que até hoje dialoga com os saberes biomédicos, através de intervenções e medicamentos, e com o campo das humanidades, através da terapia, em geral de cunho psicanalítico.
Era um tempo em que esses lugares eram povoados pela histeria, na maioria mulheres, e foi nesse contexto que Freud se inseriu, propondo a cura pela palavra, proposta ancorada na descoberta do Inconsciente. Sobraram torpedos, como era de se esperar: como o todo poderoso homem aceitaria a hipótese de que era incapaz até de se comandar a si mesmo?
A histeria deu lugar, nas vagas dos manicômios, à psicose maníaco-depressiva, e esta logo foi substituída por neuróticos e psicóticos. Essa forma de identificar sofrimentos psíquicos foi amplamente divulgada, e passou a fazer parte do vocabulário popular.
A Psiquiatria foi radicalmente modificada com a descoberta dos psicotrópicos, na década de 1950, e a publicação do DSM-III, inaugurando a era da Psiquiatria biológica. Era a medicina tentando encontrar na biologia a explicação para todos os sofrimentos psicológicos, através do casamento bem sucedido e altamente lucrativo entre psiquiatras e laboratórios farmacêuticos, e isso foi um enorme alívio para as pessoas.
Porque Freud denunciava o mal estar do sujeito perante a cultura e a sociedade, e a psiquiatria prometia curar esse mal estar com uma pílula a cada 8 horas. Então a Medicina coloca a culpa no gene do sujeito enquanto a Psicanálise chama o mesmo sujeito à reflexão sobre sua responsabilidade no processo daquela doença. Fica mais do que claro para onde o sujeito vai: em vez da dor de assumir a parte da responsabilidade que lhe toca, entra na farmácia.
Depois, faz isso com sua própria família.
Por dialogar intimamente com a cultura, a Psicanálise reabre sempre a ferida que a Medicina quer curar, e que é representada pelo mal estar entre o sujeito e a sociedade em que tem que viver.
Esse é o cenário atual, e essa é a origem das picuinhas entre alguns psiquiatras e alguns psicanalistas, o que não significa que seja entre a Psiquiatria e a Psicanálise.
Ocorre que a Psicanálise lida com a presença do sujeito, como sujeito, dentro de um grupo social. E acontece que a cultura muda constantemente, impulsionada pela tecnologia e pela mudança de costumes, então a Psicanálise, embora mantenha seus princípios básicos, exige que o Psicanalista se ajuste às condições da cultura onde está inserido naquela hora, dia e lugar. Em outras palavras: um psicanalista atuando na França e outro atuando no Irã seguirão os mesmos básicos princípios de Id/Ego/Superego e suas consequências, mas cada um observará, e através dessa observação conduzirá, seu cliente de forma diferente.
Psicanálise não é Teoria da Relatividade, que é geral para todo o planeta. Psicanálise é a arte suprema da individualidade, de conhecer aquele sujeito dentro daquela cultura naquele momento.
Aí uma construção teórica rica e vasta, que exige anos de estudo e dedicação extrema por toda a vida, às vezes é criticada por causa de uma frase que um psicanalista falou em um certo contexto de uma certa região deste planeta.
Dentro desse espírito, Lacan promoveu uma volta a Freud. Porque Freud, ao sistematizar a Psicanálise, deixou espaços suficientes para todos os teóricos que viessem após ele. Você pode pegar um conceito de Freud (neurose? Libido? Édipo? Pulsões? Recalque? Inconsciente? Perversidade polimorfa?) observar a cultura onde está inserido, e fixar seu trabalho nesse conceito.
Foi o que fez Lacan, e mais tarde vou falar disso. E é o que faço eu.
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