Texto de Manuel Vázquez Gil
Ao contrário do que comumente pensamos, nenhum de nós faz a vida que deseja viver, mas é justamente o contrário: a vida nos faz. Acontecimentos que nos marcam ficam tatuados na alma e na mente, e somos o produto da soma de todos eles. Queiramos ou não, a vida sempre passa, cabe a nós observar atentamente e aprender com os amores e as dores que surgem no nosso caminho.
Meu relacionamento com o autismo e meu modo particular de lidar com o assunto vem da história de vida rica e singular que vivi. A começar pelo fato de que sou uma das poucas pessoas que você conhece que começou a estudar o autismo anos antes de conhecer um autista. E de começar a cuidar de famílias autistas uma década antes de meu filho nascer. Ou seja: não foi um parente, um aluno ou um cliente que me jogou nessa fogueira, foi meu interesse natural em conhecer os labirintos autistas.
Sou a somatória da influência boa do meu velho pai, que me ensinou a amar o outro sem esperar recompensa; da personalidade introspectiva e tímida, que me obriga a fugir do mundo para me refugiar onde ninguém possa me achar; da particularidade de ter crescido toda a primeira infância numa casa onde só havia mulheres; da memória fascinante, que me faz lembrar de detalhes quase imperceptíveis; da forma única de análise, que eu faço do todo para as partes; dos cinco anos deitado no divã da Leinir Tenório; dos colegas de trabalho que enterrei às dúzias; da compreensão dolorosa de que, como terapeuta comportamental, eu me violentava e violentava meu cliente; do encontro com Grodeck, no Livro D’Isso; do mergulho no oceano de palavras de Freud; da passividade, que me faz tolerar pessoas e fatos sem reclamar e sem sofrer; de umas poucas mulheres que amei, mas não me amaram; de menos ainda mulheres que me amaram, mas não amei; da militância política estudantil e sindical contra o arbítrio e a ditadura; da perda do meu pai nessas lutas para a ditadura; da suprema ventura de ser pai de uma menina maravilhosa; da maravilhosa experiência de ser pai de um menino cheio de ventura; da possibilidade de ser eterno ao ser avô; de ter morrido num acidente aos trinta anos e ter sido ressuscitado; de casamentos feitos e desfeitos; do encontro do amor aos sessenta; dos livros que li, filmes que assisti, poemas que escrevi, perdas que acumulei, ganhos que guardei, de tudo um pouco que passou e marcou o meu ser.
Coisas que passaram e passam também pela sua vida, mas que talvez você não perceba, ou não dê atenção necessária, ocupado que está em viver.
Eu vivo cada encontro, abraço, beijo, cumprimento, adeus, reencontro, ruptura, compromisso como se fosse o gol do título mundial aos cinquenta minutos do segundo tempo. Sou intenso como o mar, mas acolhedor como a praia.
Tudo isso é o que sou, mas é só isso que sou. E foi com tudo isso, regido nos últimos tempos pelo meu mestre Luan, que construí o dom do autismo. Não só uma forma diferente de enxergar o autismo, mas especialmente uma mudança de olhar: pouco me interessa o autismo, suas causas, consequências, etiologias, dogmas, lendas, estudos, verdades ou mentiras. Por tudo isso só tenho o interesse do pesquisador, e muitas vezes divirto-me com algumas pesquisas, mas o autismo deixou de ser o meu interesse faz muito tempo. A partir do momento em que desenhei o dom do autismo, meu interesse total, nessa área, é o autista.
É para o autista que trabalho, é a ele que dedico meu tempo, meu cérebro e meu coração, é ele que navega no meu mar, adentra minha casa, meu consultório, minha vida toda. Quando João chega ao meu encontro, é João que eu acolho.
Esse é o eixo central do dom do autismo: há uma pessoa ali, bem na nossa frente. Não sei, nem me interessa saber o que ele tem, só desejo saber quem ele é. E dar-lhe a certeza de que, de minha parte, sempre será. Porque, de certa forma, eu me identifico com o olhar autista, não me importa a cor da pele, idade, sexo, condição, nível social ou qualquer outra coisa, o que me importa, de verdade, é você.
(Uma certa vez, numa oficina da Abraça em Belo Horizonte, deparamo-nos com um problema: não havia nada no hotel que o Luan comesse. Silvania se propôs a resolver o problema: nós continuaríamos a oficina, e ela o levaria ao shopping, em busca de algo que ele gostasse. Eles nunca tinham se visto, estavam acabando de se conhecer, mas ele aceitou e saiu com ela. Voltaram só no fim da tarde, aproveitaram a oportunidade para se conhecer. À noite, no quarto, ele me disse que gostou muito dela.
Uma semana depois eu conversava com ela por este Facebook, e ele, chegando perto, perguntou quem era a moça. Falei: a Silvania. Ele: quem é Silvania? Eu: aquela moça que te levou pra comer no Mc, que deixou você sentar no banco da frente do carro. Ele (surpreso): mas ela é negra?).
Comentários
Postar um comentário