Texto de Manuel Vázquez Gil
Donald Winnicott, pediatra e psicanalista, desenvolveu um campo próprio para atuar como psicanalista, provavelmente induzido pela sua rotina profissional de cuidar de crianças.
Teve, além disso, oportunidade histórica singular: durante a segunda guerra, quando Hitler ameaçava bombardear Londres, o governo inglês estabeleceu um programa de retirar todas as crianças da cidade, para “preservar o futuro”, e envia-las a um lugar seguro. Esse lugar seguro era liderado pelo pediatra Winnicott, que pode observar o comportamento de crianças arrancadas do seu lar e separada dos pais o tempo suficiente para confirmar hipóteses que, como psicanalista, já aventava.
Para Winnicott, toda pessoa tem potencial alto de desenvolvimento, e o ambiente do lar, proporcionado pelos pais, mas em especial pela mãe, é o motor desse crescimento, por três principais motivos: a) a condição natural de proporcionar maior desenvolvimento; b) a relativa constância da família; c) a maior tolerância da família em relação às experimentações e frustrações da criança.
No sentido de viabilizar os três requisitos, ele criou a expressão da “mãe suficientemente boa”. A ideia embutida na expressão é a de que, não havendo a mãe perfeita, bastaria, para o desenvolvimento saudável da criança, uma mãe suficientemente boa. Para exercer essa bondade suficiente, uma mãe tem que compreender, e agir sobre, as duas etapas da primeira infância: na primeira, que vai até aproximadamente seis meses de idade, o bebê se sente como parte da mãe, não se dissociando dela. Nesse período, a mãe favorece a ilusão do bebê, o que o torna onipotente, um rei tirano dono do mundo.
Na segunda etapa, a mãe cuida da separação, provocando desilusões na criança. Essas desilusões seriam necessárias para a formação de um ego forte, já que preparam a criança para a vida futura, onde ilusões e desilusões são frequentes e devem ser enfrentadas. No ambiente seguro do lar, a criança aprenderia a lidar com as frustrações futuras. Para o processo de desilusão, a mãe para de atender prontamente todas as demandas da criança, para que ela aprenda e internalize o ato de esperar.
Na passagem da primeira para a segunda etapa, é necessária a introdução de um objeto de transição, geralmente um algo macio com quem a criança se identifica (um bicho de pelúcia, um cobertor, uma toalha). Winnicott aconselha a adoção do objeto de transição na forma e intensidade que a criança deseja: não lavar o cobertor, por exemplo, para que a criança faça a transição com o cheiro do objeto preferido, favorece o crescimento e o amadurecimento da criança, e cria o ambiente de autonomia em relação aos pais, principalmente no que diz respeito a dormir sozinho.
Um ponto interessante na teoria de Winnicott é o da “maternagem”: ele garante que qualquer pessoa pode exercer o papel da maternagem, até o pai, desde que tenha disposição para executar a tarefa.
Toda mãe é uma excelente psicanalista enquanto o filho não se expressa verbalmente, porque tem que se especializar em compreender gestos, expressões e afetos sem a comunicação por palavras. A comunicação se estabelece, rica e sólida, pela necessidade de interpretar os silêncios do bebê. Depois, a criança começa a falar, a necessidade cessa e a qualidade de ler os silêncios é abolida do cotidiano. O que é uma pena: um ano ou mais de treinamento forçado para ler silêncios é deixada de lado pela facilidade com que a comunicação verbal oferece.
Toda mãe deveria exercitar suas qualidades de psicanalista, que a vida lhe ofereceu quando seu filho era bebê: as verdades do filho, não importa que idade tenha, estarão sempre no que ele não diz e no objeto de transição que escolheu para se libertar.
Só que nós não sabemos, depois que os filhos se tornam independentes, qual é seu objeto de transição. E nem paramos para ouvir seus silêncios.
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