Texto de Manuel Vázquez Gil
“Quando uma criança tapa os ouvidos, ela está para alguma coisa que está sendo falada – já não está no pré-verbal visto que se protege do verbo, o que atesta a sua relação com o Outro e permite afirmar que o sujeito autista está na linguagem, ainda que não fale”. (1)
Esta é, com certeza, a parte mais delicada desta série, especialmente porque Lacan é ilegível para a maioria das pessoas, o que me inclui. Construí este texto amarrando meu burro em frases contundentes de Lacan e fazendo uma releitura dos conceitos de Freud que ele revisitou. Ou seja: embora se mantendo fiel ao pensamento lacaniano, o teor deste texto é fruto da minha particular compreensão como freudiano.
Preciso começar dizendo que Jacques Lacan, contemporâneo nosso, que estava vivo ainda ontem (morreu em 1981), era psiquiatra. E que o desconhecimento desse pequeno “detalhe” mostra a má vontade e o preconceito que gira em torno da Psicanálise, já que tudo o que se sabe é que ele era psicanalista. Aliás, quando se formou, como não havia a cadeira de Psiquiatria, Lacan seguir a especialidade da Neurologia, só se especializando em Psiquiatria anos mais tarde, tendo inclusive atuado em manicômios que franceses da época chamavam carinhosamente de “asilos”.
Antes de Lacan, o paradigma psiquiátrico para doenças mentais estava no tripé Neuroses-Psicoses-Perversões. Como o autismo não era neurose, nem era perversão, alguns autores encaixaram-no (Bleuler inclusive) no grupo das psicoses. Quando se aproximou da Psicanálise, Lacan quebrou esse eixo, e propôs uma nova tríade, Real-Simbólico-Imaginário. Nesse novo eixo ele estudou e inscreveu o autismo, tirando-o do campo da psicoses e trazendo-o para o campo das linguagens.
Em 1975, numa Conferência em Genebra sobre o sintoma, Lacan fala sobre autismo. Diz que autistas NÃO CONSEGUEM escutar o que temos a lhes dizer enquanto nos ocupamos deles, enquanto nos colocamos na posição de querer cuidar/tratar. Essa nossa posição faz com que as crianças autistas ocupem um lugar onde se protejam, e a clínica psicanalítica com crianças autistas TEM QUE sair/desocupar esse lugar de cuidado e perseverar em escutá-las. (2)
Gostaria imensamente que você relesse à exaustão o parágrafo acima, ele vai lhe mostrar a diferença entre uma sessão terapêutica psicanalítica e algumas outras sessões.
No mesmo texto dessa Conferência, Lacan afirma que “os autistas escutam a si mesmo. Eles ouvem muitas coisas”. O autor ressalta que o que faz com que não os escutemos é pensarmos que eles não escutam, mas não podemos pensar que autistas não escutam nem falam, afinal, autistas são “personagens de preferência verbosos”.
Acho que vai se lembrar do que digo: não existe o autista não verbal, verbo é ação, e cada ação é um verbo. Mesmo que exista os que não falam com a voz, eles falam sempre. Cabe a nós saber ouvi-los.
Porém, Lacan assevera que autistas, mesmo estando na linguagem (oral, do corpo, através de sintomas, em suma, na ação), eles não estão no discurso, porque estar no discurso significa saber se virar com as diversas formas de interação social instauradas entre seres falantes.
Assim, a tarefa do analista seria levar o autista do estar na linguagem para o estar no discurso. Mas estar no discurso exige que o sujeito seja protagonista. Então o analista precisa se deixar regular pelos desejos da criança, para que ela possa elaborar seu próprio discurso. Já em 1954 Lacan explicava que a palavra não é palavra a não ser que alguém acredite nela, que a palavra é um meio de reconhecimento pelo outro. “Na medida em que se trata para o sujeito de se fazer reconhecer, um ato é uma palavra” (1968, p. 279).
Esse é o fosso existente entre a Psicanálise e suas vertentes e o Behaviorismo e seus braços: neste, a criança é o objeto a ser lapidado pelo terapeuta, geralmente sob as orientações da família e da escola, no intuito de remover rituais, comportamentos e estereotipias (autistas preferem stims, e eu também, mas as terapias comportamentais querem estereotipias, até porque, se usassem stims, não haveria o menor sentido de extinção), então vou manter “estereotipias”. Na Psicanálise, a criança é um sujeito de desejos, que deve ter respeitados os chamados sintomas, porque são parte integrante dele e forma eficaz de comunicação.
Você há de compreender que é difícil lidar com um terapeuta que diz para os pais que o sujeito ali é a criança e ninguém mais. Porque os pais foram lá justamente à procura de um escultor que transformasse seu filho num sujeito comum.
Vamos então ao ponto: Freud, ao navegar por mares nunca dantes navegados, muitas vezes meteu a mão na lama para revirar costumes e conceitos. Sabemos todos que crianças são criadas e educadas por seus pais, e que essa educação gera conflitos e traumas na mente infantil. Esses conflitos se estendem para a vida adulta, porque certas coisas não podem ser resolvidas durante a infância. Então, como pais, somos responsáveis por uma grande parte dos atos e sentimentos dos nossos filhos quando se tornarem adultos. Muitos enxergam nisso uma culpabilidade dos pais, mas não é do que se trata. Trata-se de alertar para a responsabilidade que temos sobre o futuro dos nossos filhos, para o bem e para o mal.
Ou seja: você pode ver pelos trechos que copiei de Lacan que ele não coloca a culpa em ninguém e que, se alguém porventura tiver culpa pelo não crescimento e evolução de uma criança autista, será o terapeuta, que não soube dar voz e protagonismo a seu pequeno cliente.
Está longo demais este texto, volto às considerações outro dia. Sigo o conselho de Lacan, a quem nunca compreendi, mas a quem respeito profundamente: “Você pode saber o que disse, mas nunca o que outro escutou”.
(1) Alocução sobre as psicoses da criança [1968]. In: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003., p. 28)
(2) 1975, Conferência em Genebra sobre o Sintoma)
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