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Alejandro, Freud, Grodeck, Luan e Eu

Texto de Manuel Vázquez Gil

A vida nos molda todos os dias, o tempo todo, deixemos ou não. Ao caminhar, deixamos pegadas, mas nem sempre percebemos que, se por um lado pisamos nos rastros deixados por alguém que por ali caminhou antes de nós, também outros caminharão sobre os rastros que nós deixamos. Daí que somos o produto dos passos que pessoas queridas marcaram antes de nós, e somos responsáveis pelas pegadas que deixamos e outros que nos amam ou admiram seguirão.

Algumas mulheres marcaram a minha vida, mas quatro homens construíram meu ser. O mais importante deles foi meu pai Alejandro, que me ensinou, na prática, o conceito de bondade, de dar sem olhar a quem e nada pedir em troca e a sensibilidade de chorar com o outro, rir com o outro, amar com o outro. Depois, meu filho Luan, que me ensina todos os dias a tolerância com os diferentes e a paz da certeza de ser o que é. Deles compreendi que a suprema tarefa de um homem na terra é ser feliz, mas que a felicidade só é possível quando a distribuímos entre aqueles que passam por nós.
Com Karl Grodeck aprendi que um sujeito é um ser total, e tudo que ele é lhe pertence. Inclusive a doença. Aprendi que ninguém cura ninguém, mas que a própria pessoa se cura, se assim quiser. Que a doença é sua, e você pode ficar com ela se assim desejar. Que, se você quiser se livrar dela e não estiver conseguindo, posso ajudar. Mas só se você pedir.
E com Freud aprendi a respeitar o desejo do outro, a suprema diferença entre o que eu quero que você seja e o que você quer ser. A enterrar meu Procusto e abrir o coração para a aceitação.
Foi uma frase de Freud que mudou minha vida e meu histórico profissional: "Recusamo-nos da maneira mais enfática, a transformar um sujeito que se coloca em nossas mãos em busca de auxilio, em nossa propriedade privada, a decidir por ele o seu destino, a impor-lhe os nossos próprios ideais e, com o orgulho de um Criador, formá-lo à nossa própria imagem". Essa é, para mim, a síntese da Psicanálise que, como Freud descreveu, é a "cura pelo amor".
Faço esta introdução num domingo festivo, para mais tarde discorrer sobre a técnica terapêutica que uso. Você precisava saber o que me levou ao caminho que hoje sigo, que trouxe fundamentos da vida intensamente vivida, de acontecimentos bons e ruins, mas sempre profundos, de pessoas que passaram, lenta ou rapidamente, mas que marcaram com fogo esta alma, e da memória lancinante que a natureza me deu.
Houve noites, muitas noites, que desejei perder a memória para não sofrer.
Depois, quando já tinha decidido como tocar minha profissão, surgiu o Luan. Que me ensinou tanto, mas tanto, e me ensina todos os dias, e com quem, finalmente, refinei meus sentidos da aceitação plena e sem volta. Agora, pensei, já estava pronto para cuidar dos desconfortos mentais daqueles que me procurassem e quisessem deles se livrar. Mas, do outro lado, respeitar todos os que desejassem manter-se nesse desconforto.
O desconforto é seu, pode ficar com ele, se assim quiser. Quando desejar se livrar, e se quiser minha ajuda, estarei aqui à sua espera. Saiba que, se buscar minha ajuda, sou um psicanalista, e é com as minhas técnicas e vivências da Psicanálise que vou ajudar você. 
Então, se você tem algum preconceito contra a Psicanálise, melhor não vir, com certeza vai sair encantado e sem saber o que fazer com tudo que pensou até hoje. 
E se você acha que o terapeuta é Procusto, ou que está a serviço de pais Procustos, não me procure, posso lhe indicar colegas muitos melhores do que eu.
Vou lhe adiantar o que faço e como faço:
Os desconfortos psicológicos ficam acumulados por muito tempo, geralmente durante anos, e tornam-se crônicos. As defesas psicológicas de que nossa mente lança mão empurram esses desconfortos para as catacumbas do inconsciente, e eles ficam lá, obstruindo nosso caminhar e nossa felicidade.
Não há como curar desconfortos crônicos, a não ser tornando-os novamente agudos, dolorosos, avassaladores. Esse é um ensinamento da medicina antiga e tradicional, que também serve para a psicologia: fazer com que a febre e a dor voltem, para que a temperatura alta e o sistema imunológico, por si só, destruam o monstro.
Para se livrar dos desconfortos crônicos, é preciso cavá-los lá nas catacumbas, traze-los de volta à superfície, deixar que o monstro apareça e assuste, e só então, em meio ao sofrimento original tão habilmente recalcado, mata-lo.
A isso chamamos catarse. 
É o que faço: abrir a tampa do poço para que o monstro apareça e deixar que você mesmo o mate.
“Não adianta falar para o menino que bicho-papão não existe. Bicho-papão existe, é real. O que o pai tem que fazer é ir lá e mata-lo” – Luan Alejandro

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