Texto de Manuel Vázquez Gil
Embora seja fruto de pesquisas cuidadosas e observações efetuadas ao longo de uma década, o Dom do Autismo é irritantemente simples. Porque parte do princípio de que uma resposta só é resposta se for mais curta e clara do que a pergunta. Se uma resposta provoca outra pergunta, não foi resposta, mas apenas uma ponte entre duas perguntas.
E o que queremos, você sabe, são respostas.
Para sistematizar o projeto, fui buscar o que o autista quer, o que ele me diz, sugere, aprova. O Dom do Autismo é um sistema desenhado por autistas e digitado por mim. E que é revisado por eles o tempo todo. Nesse sistema, eles são os sujeitos, nós apenas seguimos suas orientações e demandas. Com certeza, esse é o segredo do sucesso do sistema: você dá ao sujeito o que o sujeito quer, e o que ele quer é justamente o que precisa.
O princípio moral do sistema é a percepção dos papeis: nas ações cotidianas, cada personagem na vida de um autista precisa ter papeis perfeitamente definidos, para que se torne previsível e confiável. Nesse sentido, o psicólogo não alfabetiza, o professor não aplica técnicas nem usa ferramentas do psicólogo, o terapeuta ocupacional não ensina matemática, o pai educa, brinca, ensina a andar de bicicleta, dá o lazer.
O princípio ético do sistema não olha para o autismo, mas para o autista. Avalia as necessidades que ele apresente e trabalha apenas e tão somente isso: só frequenta fonoaudiólogo aquele que tem dificuldades na fala; só faz terapia ocupacional o que não consegue aprender atividades da vida diária com seus pais; só vai ao psicólogo o que tiver verdadeira necessidade de tratamento.
O princípio pedagógico do sistema prevê que o professor é um pedagogo, nada mais do que isso, e isso já é o bastante. Ele não cuida do autismo, mas da parte pedagógica do aluno. Tem que fazer uma avaliação pedagógica e identificar as dificuldades de aprendizagem, e nelas trabalhar. O autismo jamais norteia seu trabalho, e não é motivo de aperfeiçoamento ou intervenções. Deve fazer aquilo que foi treinado e contratado para fazer: ensinar.
E o princípio humano do sistema conclui que o autista é um ser humano, cidadão com direitos e deveres como qualquer cidadão, onde o autismo é apenas uma característica entre muitas outras, assim como todos seus colegas também têm características próprias que fazem parte de um todo e não servem para justificar nem o preconceito nem a superproteção.
Para que o sistema funcione, conscientizamos os principais atores, pais e professores, de que são os mais aptos que devem se adaptar, e que adaptação significa mudar o ambiente para que todos se sintam confortáveis ali e queiram sempre estar. Você pode ver que é uma visão muito diferente da que se convencionou usar: no Dom, meu filho tem o direito de ser como é, eu é que devo me adaptar ao seu jeito de ser. Se não conseguir, vou em busca de ajuda, mas para mim, não para ele.
O princípio prático do sistema engloba algumas ferramentas práticas, resumidas nos Sociogramas de Fotos e de Figuras e no Boletim de Avaliação, que descreverei em outro texto, e na Dieta Sensorial, que é um ambiente favorável aos sete sentidos do sujeito.
O Dom é o único sistema de inclusão, todos os outros visam a superação. E tem uma curiosidade fascinante: todas as famílias que o adotaram melhoraram o relacionamento entre seus membros e deles com a comunidade social e escolar. Isso se dá porque o foco muda: de tentar mudar o sujeito e reclamar de quem não sabe ou não quer ajudar a muda-lo, passa a ser mudar as pessoas em volta e agradecer por cada pequena mudança.
Mas tem um pequeno segredo, que é o seguinte: o não não ensina, você vai ter que aprender a educar e ensinar com o sim
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