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VOCÊ É PSICANALISTA?

Texto de Manuel Vázquez Gil

Não tenha medo, é uma pergunta retórica, mas que pode ajudar você a compreender seu método mental de resolver problemas e sua visão de mundo. Acompanhe atentamente:
1 – Psicanálise é a junção de Psico (mente) + análise (decompor um trem complexo em seus diversos elementos). Já na sua apresentação, dissocia-se da Psicologia, que significa “estudo da mente”. Ou seja: a Psicologia estuda, a Psicanálise decompõe. Isso faz grande diferença. Pense no Psicólogo como um arguto detetive que vai juntando evidências para compor o quadro final do crime e do culpado, e pense no Psicanalista como o observador que fica fora da cena do crime, observando todo o cenário e separando seus elementos, para compreender cada um individualmente.
2 – Análise é oriunda do grego “análysis” que, como citei logo acima, significa o que expliquei significar. Mas o temo análysis tem raízes mais profundas e antigas: teve origem na união de ‘aná’ (para cima) + lyein (soltar, decompor). A maioria dos estudiosos concorda que anályein fazia referência ao ato de debulhar o milho, quando se joga a espiga para cima e os grãos se soltam, se decompõem. 
3 – Foi Pappus de Alexandria, matemático do Séc. IV da nossa era que estabeleceu os critérios matemáticos da análise: a) os elementos desconhecidos de uma teoria são construídos a partir dos elementos conhecidos; b) o todo é constituído de partes que se organizam com coerência e lógica.
4 – Freud escolheu chamar sua teoria de Psicanálise não por acaso, para simplesmente cunhar um termo diferente da Psicologia. Escolheu esse termo para identificar técnicas e procedimentos que identificam o método investigativo: do todo para as partes. Primeiro você vê o ambiente como um todo, depois vai decompondo nas partes que o compõe. A partir dessas partes, agora conhecidas, você vai descobrindo e construindo os elementos desconhecidos. Se, no final, as partes se organizam com coerência e lógica, bingo! Você decifrou, não será devorado pela grande Esfinge do inconsciente.
Então é assim que funciona: se você vai das partes para compor o todo, você é um estudioso da mente, um psicólogo, o sujeito que pega os grãos de milho que o cliente lhe joga e vai colando no sabugo até construir o milho; se parte do todo para decompor em partes, é um analista da mente, um psicanalista, o sujeito que pega a espiga de milho e joga para o alto, para estudar cada grão separadamente até encontrar coerência e lógica em cada lugar que cada grão vai ocupar no sabugo.
Por isso disse pra você que minha personalidade é de psicanalista: quando vou observar um determinado estudante na sala de aula, meus olhos absorvem a sala toda: colegas, professor, móveis, cortinas, cores, enfeites nas paredes, organização espacial, movimentos, interações, luzes, sons, tudo. Só então vou de carteira em carteira me apresentar para as crianças, todas as crianças, uma de cada vez, pergunto seus nomes, vejo o desenho que estão fazendo, a letra, o jeito de sentar, de demonstrar surpresa com a minha presença. Aí junto as partes, todas essas que citei acima, e conheço o estudante que fui observar. Posso, então, fazer sugestões ao professor e à família.
Aceitação costuma ser a palavra-chave para a inclusão, em qualquer lugar. Todo processo de aceitação é psicanalítico, não se aceita uma pessoa enquanto não se compreende o ambiente onde está inserido. E não se aceita uma pessoa enquanto não se decompõe esse ambiente nos seus números primos.

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