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Manuel Vázquez e a questão psicanalítica


Continuo em estado de graça pelas lembranças piauienses. Mas confesso que já preciso me esforçar para cumprir a tarefa que me dei e que prometi continuar para algumas pessoas. É que, ao decidir esclarecer pontos sobre a psicanálise, só quis ser didático e pedagógico, o mais isento e claro possível.
Ora, eu sei que há psicanalistas que falam besteiras, assim como há jornalistas que escrevem besteiras, médicos que fazem besteiras, pais que cometem besteiras. Mas quando um pai, um médico ou um jornalista descrevem suas funções, eles abrem um mundo novo pra mim, e então eu ouço respeitosamente. Não vou ouvir uma palestra de Elio Gaspari e depois comentar que Kim Kataguiri escreve merdas.
Mesmo assim, eu me arrasto e tento manter o nível que me propus. Então, de volta ao assunto:
A minha visão de saúde mental está descrita na parábola que criei da balança de ourives: num prato estão os desejos; no outro, as repressões. Desejos são do campo do Id, são regidos pelo princípio do prazer e são inatos, próprios dos seres humanos; repressões são do campo do Superego, e são incutidos pela cultura, em especial pelo pai ou tudo que o pai representa. Se a cada desejo que surgir o sujeito colocar uma repressão no outro prato, para equilibrar a balança, ele viverá em equilíbrio durante um tempo, mas afundará pouco a pouco na neurose, sobrecarregará a balança e o braço se quebrará. Como pode visualizar, o braço quebrado joga os dois pratos para o precipício, e sobrevém a depressão.
Nesse braço trabalha o psicanalista, na reparação do braço da balança quebrado, que não permite que o sujeito seja autônomo e feliz.
Pois bem: Melanie Klein e seus seguidores trabalham na adaptação do sujeito às ordens do Superego, portanto da cultura local. O lance é obedecer os pais e as autoridades, adaptando a balança para a sobrecarga das repressões. Por isso psicanalistas kleinianos trabalham com crianças: de certa forma, eles se aproximam, mesmo que com outras técnicas e ferramentas, aos cognitivistas e aos comportamentais.
Freud trabalhava diferente. É clássico o conselho que ele dava: onde esteve o Id, que esteja o Ego. Porque o Ego, que só é formado mais tarde, é o grande mediador entre os desejos do Id e as repressões do Superego. É o Ego que permite pequenas satisfações do desejo, desde que não agridam as normas éticas e morais do Superego. Ou seja: em lugar de sobrecarregar a balança, aumentando as repressões, alivia-se, satisfazendo alguns desejos e, dessa forma, o braço se mantém intacto.
Na medida em que o terapeuta consegue que o seu cliente possa migrar o Ego "para onde está o Id", ou seja, para o prato oposto ao Superego, o equilíbrio se dará sem danos.
Nesta linha trabalho eu, e por isso evitamos trabalhar com crianças menores que 8 anos, que são predominantemente Id, ainda estão se adaptando ao Superego e, portanto, não construíram um Ego suficientemente lúcido e forte para mediar os conflitos internos.
Lacanianos, como se autodenominam os seguidores de Lacan, têm outra visão e outro ponto de trabalho: eles encorajam o cliente a encontrar um sentido para a sua vida e a se responsabilizar por esse destino. Aí não importa o equilíbrio da balança, porque o sentido que o cliente encontra para a sua vida pode até estar no desequilíbrio ou no predomínio de um prato sobre o outro.
Como já citei, Freud não se interessou pelo autismo. De certa maneira, também eu não me importo, meu foco de trabalho (e filosofia de vida) é a pessoa que está sentada diante de mim, ou deitada no meu divã. O autismo não modifica minha forma de cuidar, autistas e não autistas são iguais em direitos, e capazes de níveis de autonomia, cujo patamar depende mais da grande variedade do espectro humano do que do autismo em si.
Para muita gente, no entanto, o autismo importa mais do que o sujeito. Essas pessoas não compreendem o jeito psicanalítico que tenho de cuidar: embora a maioria se apaixone, alguns até no sentido literal da palavra, pelo que faço, muitos não percebem que só faço esse trabalho, dessa maneira, porque sou psicanalista.
Já os lacanianos, dando importância apenas secundária ao equilíbrio da balança, têm outro olhar sobre o autismo. Se me sobrarem forças e paciência, entrarei nesse campo.

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