Poema de Manuel Vázquez Gil
Quando eu era um menino
nada me detinha.
Até a grande montanha
que acolhia lobos e obstruía o sol
era toda minha.
Na água que descia o rio,
na palidez da lua,
em tudo que tinha vida
havia genes meus: eu era a pedra bruta
que pavimentava a rua.
na palidez da lua,
em tudo que tinha vida
havia genes meus: eu era a pedra bruta
que pavimentava a rua.
da noite escura e fria,
à casa do moinho,
nada existia sem o meu consentimento,
nada vicejava
fora do meu caminho.
à casa do moinho,
nada existia sem o meu consentimento,
nada vicejava
fora do meu caminho.
Entre as contas do rosário
minha mãe, coitada,
tentava me dizer que tudo era obra de Deus.
Eu nunca tive coragem para lhe dizer
que eram projetos meus.
minha mãe, coitada,
tentava me dizer que tudo era obra de Deus.
Eu nunca tive coragem para lhe dizer
que eram projetos meus.
Não era simples impressão,
era total certeza:
eu era a luz, a escuridão, a água, a relva,
a solidão, a guerra, a paz.
Eu era a natureza!
era total certeza:
eu era a luz, a escuridão, a água, a relva,
a solidão, a guerra, a paz.
Eu era a natureza!
Entre o crepitar da lenha
e o debulhar do milho,
minha mãe não percebeu
que o filho de Maria e de José
era seu próprio filho.
e o debulhar do milho,
minha mãe não percebeu
que o filho de Maria e de José
era seu próprio filho.
Então cresci e o sentimento de abandono
fez ninho no meu peito.
Eu era apenas um pequeno objeto,
um instrumento do destino
inquieto no meu leito.
fez ninho no meu peito.
Eu era apenas um pequeno objeto,
um instrumento do destino
inquieto no meu leito.
Devia ter deixado minha mãe saber
que o mar, o sol, a tempestade,
o breu e a neve,
haviam sido criados pela minha mente,
e nada me deteve.
que o mar, o sol, a tempestade,
o breu e a neve,
haviam sido criados pela minha mente,
e nada me deteve.
Isso foi ontem, já nada muda nada,
e minha mãe, já velha, não entenderá
que o amanhã
não será a ressurreição da alma e da carne,
será nosso Luan.
e minha mãe, já velha, não entenderá
que o amanhã
não será a ressurreição da alma e da carne,
será nosso Luan.
Minha mãe achava que tudo
que a natureza mostra
era obra de Deus.
tão obcecada, nunca deu valor
aos projetos meus.
que a natureza mostra
era obra de Deus.
tão obcecada, nunca deu valor
aos projetos meus.
Que eram também seus.
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