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Sou autista e tenho direito ao meu corpo – Editorial


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Todo ano a ABRAÇA escolhe democraticamente um tema para divulgar no mês de Abril, quando se comemora o dia internacional de conscientização sobre o autismo. Há sugestões, discussões, reuniões e votações, até chegar a um tema relevante, que possa mostrar para a população em geral e para o segmento autista algum pedaço da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, da qual a Abraça é defensora intransigente.

Acalentamos durante alguns anos, especialmente Alexandre Mapurunga e eu, acompanhados sempre pelo Luan, o sonho de construir uma Abraça que fosse dirigida por autistas. Nas viagens que fizemos por este país, levando as oficinas para todas as regiões, conversávamos muito sobre isso. Alguns autistas iluminados gestaram a ideia de um evento comandado só por autistas, e isso desaguou no EBA – primeiro encontro brasileiro de pessoas autistas, onde eles finalmente tiveram o protagonismo que buscam, mas que geralmente lhes é proibido.
Coube a mim a felicidade de coordenar o grupo de Relacionamento e Sexualidade. Não foi uma escolha ao acaso: minha experiência, como psicólogo e psicanalista, com autistas adolescentes e adultos, minha naturalidade com relação ao assunto e minha trajetória com o Luan, que sempre levei aos eventos e encaminho para a autonomia e protagonismo pesaram na escolha.
Nas discussões do grupo ficaram patentes as dificuldades que as famílias e a sociedade, ajudadas muitas vezes por profissionais, colocam na vida afetiva e amorosa de filhos autistas. E ficou evidente, também, o alívio de poder falar sobre isso sem julgamentos e sem amarras, acolhidos em suas demandas e ouvidos nas suas queixas. Decidimos então externar essas dores e vivências para a sociedade, o autista precisava ser ouvido e atendido.
Embora sejamos ingênuos particularmente, não o somos em grupo. Sabíamos da resistência que o assunto provocaria no seio das famílias. Sabíamos das críticas que viriam. Sabíamos das insinuações, agressões, contrariedades. Mas não recuamos: a ideia de uma campanha como essa não saiu da nossa cabeça, mas das inúmeras cabeças e corações de autistas presentes ao EBA.
Como representante da ABRAÇA para o Estado de São Paulo, como membro atuante da ABAÇA, como coordenador do grupo de sexualidade e como pai de um adolescente autista que sempre teve autonomia para falar, sinto-me à vontade para defender esta campanha pedida por ele e seus companheiros de jornada.
Para nós, da ABRAÇA, o nada sobre nós sem nós significa nada sobre eles sem eles.
Estamos orgulhosos do nosso trabalho e, principalmente, estamos orgulhosos desses autistas guerreiros, que vão à luta em busca do elementar direito de ter direito ao próprio corpo. Autistas da ABRAÇA e de todo este Brasil: somos seus soldados, digam-nos o que fazer o como fazer, e com prazer faremos.








Manuel Vázquez Gil, 29 de março de 2017

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