Certa vez, ao atravessar o rio, Cuidado viu um pedaço de terra argilosa. Tomou um pedaço nas mãos e começou a lhe dar forma. Enquanto refletia sobre o que criara, apareceu Júpiter. Cuidado pediu a Júpiter que desse um espírito à forma de argila, e este deu.
Cuidado quis então dar seu próprio nome à forma que criara, mas Júpiter não concordou: por ter-lhe dado um espírito, deveria ser chamado de Júpiter.
Enquanto discutiam sobre o nome que deveria receber a forma, surgiu Terra. Por ter fornecido a matéria prima, também esta reivindicou que seu nome batizasse a forma. Não encontrando o consenso, os disputantes chamaram Saturno para decidir a contenda.
Saturno, em sendo justo, pronunciou a seguinte sentença: "Tu, Júpiter, por teres dado o espírito, deves receber esses espírito após a morte da forma; tu, Terra, por teres fornecido a matéria prima, receberás o corpo após a morte; porém, como foi Cuidado quem primeiro o formou, a forma deve pertencer-lhe enquanto viver. Para que não haja disputa sobre o nome, ele se chamará "homo", pois foi feito de humus".
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Com o passar dos tempos, a forma de argila esqueceu seus primórdios e seus construtores e decidiu tomar o lugar de Saturno. Deu a si próprio o sobrenome de "sapiens" e se declarou dono de tudo que a vista alcançasse. Construiu poderosos telescópios para ampliar esse alcance e se tornar dono de todo o Universo.
Então Júpiter abandonou-o na morte, Cuidado abandonou-o em vida. e Terra exigiu de volta o pedaço que tinha emprestado para sua construção. Se era um pedaço de argila à beira do rio, que volte a sê-lo.
E o homo sapiens transformou-se em um nada, incapaz de refletir suas próprias ações e de vencer um minúsculo inseto. De todos os atributos, restou a arrogância e nada mais.
(Parte primeira, fábula de Higino; parte segunda, fábula de Manuel Gil)
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