Texto de Manuel Vázquez Gil
1 - é fácil demonstrar que o não não ensina. Tente ensinar tabuada com o não: 2x2 não é 5; 2x3 não é 8, 2x4 não é 3. Ou história: quem descobriu o Brasil não foi Cristóvão Colombo. Ou geografia: a capital do Brasil não é Curitiba.
O não tem o poder de liberar "toxinas" no cérebro que paralisam a ação: quando uma pessoa ouve um não, dificilmente ela ouve o que vem depois, o simples e puro "não" basta para que tudo o que o complementa perca o sentido e seja descartado.
Ah, tá! Mas como educar sem o não?
2 - dou exemplos. A entrada e saída da escola, por exemplo: um milhão de carros atravancam a rua, param sobre a faixa de pedestres, buzinam, esbarram, atrapalham pedestres (que são os alunos e seus pais). Eu estaciono na avenida, a 50 metros da escola, ando devagar até lá, troco ideias com o Ninho, o porteiro simpático, abraço e sou abraçado pelas crianças, ganho marquinhas de boquinhas nas bochechas, paquero as moças da cantina e as professoras, pego meu filho, a mão no ombro, e caminhamos conversando até o carro.
Ele está crescendo sem que eu tenha que lhe dizer que NÃO pode parar sobre a faixa, NÃO pode parar em fila dupla, NÃO pode parar na vaga da perua escolar, NÃO pode atravancar o trânsito, NÃO pode buzinar em frente à escola.
Exemplo positivo, do sim.
3 - em casa, só tem o que pode, o que não pode fica no mercado.
4 - eu reúno grupos de crianças e de jovens e jogamos o jogo do absurdo: ganha quem tiver a ideia mais estapafúrdia. Eu comando, então eu não posso falar não. Tipo: falo pra eles que preciso ganhar mais dinheiro, o que devo fazer? Respostas: trabalha também à noite e finais de semana; assalta um banco; vende os órgãos; tira teu filho da escola e bota pra trabalhar; aprende a fazer notas falsas.
Na discussão sobre quem falou a coisa mais absurda (nessa, por incrível que pareça, não ganhou a "venda os órgãos", mas a "tira teu filho da escola e bota pra trabalhar"), as próprias crianças compreendem o que é certo e o que é errado.
Há muitas maneiras de ensinar sem o uso do não, invente a sua e conte pra mim, preciso aumentar minha biblioteca.
Mas, pera aí, tio, você nunca diz não? Claro que sim. Mas o não, pra mim, é um advérbio de negação, só uso quando é para negar, não para ensinar ou educar.
E penso mil vezes antes de falar. Porque, depois que falo, não posso voltar atrás, e eu adoro voltar atrás, por isso encontro maneiras de negar sem o não.
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