Texto de Manuel Vázquez Gil
Abro um pequeno parêntesis para falar sobre Melanie Klein, psicanalista austríaca que rompeu com a linha de Freud para elaborar um sistema de psicanálise para crianças, afinal hoje é sábado de aleluia, dia da mulher que sofre sua maior perda. Vale a pena falar dela porque é mulher, viveu e cresceu dentro de uma família matriarcal, conviveu com inúmeros lutos desde a primeira infância e era mãe de três filhos quando se voltou para a Psicanálise, depois de deitar anos a fio nos divãs de psicanalistas.
Interessante que Melanie acelerou seu sistema a partir de um desentendimento teórico com Anna Freud, filha do cara e que estaria no firmamento também, se não fosse filha dele. Quando Anna publicou O Tratamento Psicanalítico em Crianças, em 1927, Melanie leu e não gostou. Iniciou um movimento de separação, e da construção de uma Sociedade Psicanalítica Kleiniana.
Para concretizar suas ideias, Melanie cuidou de Dick, um menino autista, durante 17 anos, dos 5 aos 22. Nesse espaço de tempo, entre 1929 e 1946, publicou A Psicanálise da Criança e Amor, Ódio e Reparação. Quando Dick já era um adolescente adulto, Melanie elaborou sua teoria. Sua última contribuição, já com câncer e no fim da vida, publicou o artigo A técnica psicanalítica através do brinquedo, sua história, sua significação. Morreu 4 anos depois, em função de anemia profunda, provavelmente causada pelo câncer.
Mais do que em qualquer outro teórico, a vida de Melanie contribuiu para sua teoria e prática, por isso perdi algumas linhas nas partes biográficas pertinentes ao seu trabalho.
Enquanto Freud trabalhava o desenvolvimento na primeira infância observando as fases Oral, Anal e Fálica, Melanie adotou os significados de “posições”. Segundo ela, a criança nasce dicotômica, e ou ama ou odeia, não havendo espaço para outras significações. Dessa maneira, o seio é bom quando amamenta, e é ruim quando se afasta. Como não há modo de satisfazer todos os desejos do bebê, quando sente fome ou medo e não tem o seio, aquele seio é mau. Melanie cunhou a expressão “seio bom, seio mau” para definir o que ela chama de “posição esquizo/paranóide”, a primeira posição de uma criança no mundo.
Em palavras simples, a criança veria a mãe como esquizofrênica (ora boa, ora ruim), e entraria numa posição de paranoia (caraca, meu, tenho duas mães!).
O desenvolvimento vai trazer outra compreensão e a criança, ao adquirir autonomia de movimentos, percebe que os dois seios pertencem à mesma mãe, que mãe é uma só, e que quando desaparece, não desaparece, apenas foi ao banheiro ao à cozinha. Migra, então, para o segundo momento, a “posição maníaco/depressiva”. Em palavras simples, a percepção de que julgou errado o tempo todo, e que a mãe não é esquizofrênica, mas maníaca (não faça isso!, Cuidado! Você vai cair! Coma tudo!), entra numa posição depressiva.
Trabalhando com as duas posições, Melanie dá mais dinamismo ao desenvolvimento da criança. Sua prática terapêutica, então, visa harmonizar essas duas posições que, segundo ela, vão dirigir o resto da vida daquela pessoa. Faz isso de modo suave através do brinquedo, da história do sujeito e sua significação, como explicou em seu último artigo.
Curiosidade: você que acredita que o autismo nasceu com Kanner, em 1943, perceba que Melanie Klein cuidou de um menino autista entre 1929 e 1946. A história pode nos mostrar que as coisas não são exatamente como querem que acreditemos que sejam, e que é mais forte o marketing do que a verdade. Pode ver, também, que antes de Wundt, Skinner e a escola da Carolina do Norte, uma mulher, mãe de 3 filhos, que deixou a faculdade de medicina na metade para cuidar deles e foi lidar com Arte e História, já se virava nos cuidados com autistas.
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